Biografias: Hattie McDaniel

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Hello sweeties! Cá estou dando continuidade em apresentar (ou explicar melhor) a vida de algumas pessoas que admiro e que mudaram a história de como fazer cinema e também transformações no nosso modo de pensar ou comportamento. Hoje trago a história de uma verdadeira guerreira, que nunca teve medo de ser pioneira e transformava os pequenos papéis que recebia em atuações memoráveis: Hattie McDaniel! Esta foi, além de ser uma das primeiras negras no rádio, a primeira negra a receber um Oscar. Uma pessoa excepcional que merecia um filme sobre a vida dela com certeza!



Nascida em 1885, em Wichita, Kansas, Hattie era a caçula dos treze filhos de Henry McDaniel, soldado reformado da união na Guerra Civil e de Susan Holbert, cantora de música gospel, ambos ex escravos. Durante a infância, sua família viveu em Fort Collins, Colorado e depois em Denver.
Em 1910 ela foi a única afro-americana a participar do evento Women's Christian Temperance Movement, onde veio a ganhar uma medalha de ouro por recitar um poema que ela mesma escrevera, intitulado "Convict Joe". Ganhando o prêmio, ela finalmente percebeu que queria se tornar uma artista na área de entretenimento. Abandonou a escola secundária no segundo ano para viajar pelo país com um grupo de músicos formado por seu pai e os irmãos Otis e Sam.

Hattie McDaniel jovem. Data desconhecida

Sua experiência no show de menestréis dos seus irmãos a fez aperfeiçoar outro de seus talentos: o de compositora. Além de ser a cantora principal do grupo, ela ainda escrevia canções para seus irmãos. Depois da morte de seu irmão Otis, o grupo entrou em declínio e ela não teve outra oportunidade no ramo de entretenimento até 1920, quando se juntou ao elenco da peça Melody rounds, de George Morrison. Em meados dos anos 20, Hattie resolveu investir na carreira de cantora no rádio, junto com o grupo de Melody rounds, sendo uma das primeiras mulheres negras a cantar no rádio. Seu trabalho nas rádios lhe rendeu várias gravações, muitas das músicas escritas por ela mesma. Seu sucesso como cantora lhe rendeu várias turnês pelos Estados Unidos. Muitas dessas turnês e também papéis do teatro que ela apresentava eram "arranjados" pela Theatrical Owners Booking Association, uma associação de donos de teatro negros. Com a queda da Bolsa de Valores de Nova York, a associação se viu obrigada a fechar as portas. Hattie, como muitos outros artistas negros, se viu desempregada e sem chances de novos papéis ou de cantar. Para não passar fome, McDaniel começou a trabalhar como atendente de banheiro no Club Madrid, em Milwaukee, boate exclusiva para pessoas brancas. Apesar de saber que ela era uma excelente cantora, o dono do clube temia deixar ela cantar. Mas, na primeira oportunidade que teve, Hattie foi um sucesso tão grande que se tornou uma das principais atrações da boate

Hattie McDaniel e Mae West em I'm no angel (1933)

Em 1931, Hattie se mudou para Los Angeles para se juntar a seus irmãos Sam, Etta e Orlena, afim de se aventurar no cinema. Quanto não conseguia nenhum papel, trabalhava como empregada doméstica ou cozinheira. Sam, que trabalhava na rádio KNX, conseguiu para a irmã o papel de Hi-Hat Hattie, uma empregada doméstica mandona que às vezes "esquece o seu lugar". Apesar de ser um sucesso, seu salário era tão baixo que, na vida real, ela mantinha seu bico como empregada doméstica. Sua primeira aparição no cinema foi em The Golden West (1932), onde seu nome nem apareceu nos créditos. Seu segundo filme foi um sucesso com a atriz Mae West, I'm no angel (1933), como uma das empregadas de Mae. Ela recebeu vários outros papéis de filmes não creditados no início dos anos 1930, muitas vezes cantando em coros. 
Nesse lance de filmes não creditados, vale falar aqui que ela participou, em toda a sua carreira, de 300 filmes, mas seu nome só apareceu nos créditos de 80 deles. Isso dá pra ter uma noção de como a Era de ouro de Hollywood ainda era um terreno bem árido para negros... 
Em 1934, Hattie teve a oportunidade (uma das pouquíssimas de sua carreira) de ser a protagonista. Em Judge priest, de John Ford, ela também teve a oportunidade de mostrar seu talento de cantora nas telonas, fazendo dueto com Will Rogers. 

Hattie em Judge Priest (1934)

Após se afiliar ao Screen Actors Guild, Hattie passou a receber papéis melhores e ser creditada nos filmes, e também se tornou amiga de grandes celebridades da época, como  Joan CrawfordBette DavisShirley TempleHenry FondaRonald Reagan (para os desavisados... Sim, o Reagan foi ator e depois foi presidente dos EUA)Olivia de Havilland e Clark GableFoi por volta daquele tempo que ela começou a ser criticada por membros da comunidade negra pelos papéis que escolhia. The Little Colonel de 1935 mostrava serventes negros tentando retornar ao Sul dos Estados Unidos. 

Hattie McDaniel e Shirley Temple em Little Colonel (1935)

Ela também gerou muita raiva para o público branco (sulista) principalmente com o filme Alice Adams, porque ela roubou a cena da estrela do longa, a (branca) Katharine Hepburn. Esse papel consolidou Hattie no papel da empregada atrevida e respondona. 

Hattie e ... E o vento levou 

Não há dúvidas que o papel da vida de McDaniel foi Mammy em ... E o vento levou, mas a história dela nesse filme é um capítulo bem especial. Bom, a competição para o papel de Mammy foi quase tão grande quanto a do papel de Scarlett O'Hara.  Eleanor Roosevelt escreveu para o produtor do filme, David O. Selznick, para pedir-lhe que o papel fosse dado à sua própria empregada. McDaniel não achou que o papel iria ser dado a ela, pois era mais conhecida como atriz cômica. Clark Gable queria que o papel fosse dado para ela, e quando Hattie foi fazer o teste vestida num uniforme de empregada, Selznick percebeu que tinha achado sua MammyDepois de saber que haveria uma adaptação do livro para o cinema, a NAACP (A Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) lutou para que o diretor do filme retirasse todos os trechos ofensivos (em particular o uso da palavra "nigger") e os trechos onde exaltam o KKK. 
Quando foi se aproximando a data de estréia de …E o Vento Levou em Atlanta, ela avisou ao diretor do filme, Victor Fleming, que estava doente e não poderia ir; na verdade, ela não foi pois estava com medo do que poderia acontecer devido a recente ascensão da Ku Klux Klan no Sul. Isso sem contar que pelas regras da segregação racial, Hattie não poderia entrar no hotel, o que exigiu que o diretor do estúdio, David Selznick, pedisse uma autorização especial. Quando Clark Gable descobriu que McDaniel não iria por causa de questões raciais, ele ameaçou boicotar a estréia do filme; ele mais tarde rendeu-se a ir após McDaniel convencê-lo.

Vivien Leigh e Hattie McDaniel em Gone with the wind (1939)

Foi pelo papel de Mammy em … E o Vento Levou (1939), que ela recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante, em 29 de fevereiro de 1940, tornando-se na primeira negra a receber tal prêmio. Também foi a primeira negra a ir à cerimônia de entrega dos prêmios Oscar. O pior é que mais uma vez a história vergonhosa se repetiu: o hotel onde a cerimônia do Oscar foi realizada, o Ambassador Hotel, não permitia a entrada de negros, o que obrigou a David O. Selznick pedir para conseguir que McDaniel entrasse, porém, ela não pode se sentar  junto dele e do restante do elenco de E o Vento Levou…, como Vivien Leigh e Clark Gable. A atriz ficou em uma pequena mesa no fundo do salão, junto com seu acompanhante, F.P. Yober, e seu agente, William Meiklejohn. Seu discurso ao receber a placa (os atores coadjuvantes não recebiam a estatueta, e sim uma placa) é tocante:

"Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, membros da indústria cinematográfica e convidados de honra: Este é um dos momentos mais felizes da minha vida, e quero agradecer a cada um de vocês que teve um papel em me selecionar para um de seus Prêmios, por sua bondade. Fez-me sentir muito, muito humilde; E eu sempre vou segurá-lo como um farol para qualquer coisa que eu possa ser capaz de fazer no futuro. Espero sinceramente que seja sempre um crédito para a minha raça e para a indústria cinematográfica. Meu coração está cheio demais para te dizer como me sinto, e posso dizer obrigado e que Deus te abençoe"

Hattie McDaniel na cerimônia do Oscar de 1940


No decorrer dos anos 40, o sucesso e talento de Hattie eram indubitáveis mas ainda era legada a fazer papéis de empregada, o que gerava cada vez mais críticas da NAACP, que a condenava pela estereotipação do negro como serviçal. Pelo final da década, ela não recebia mais papéis em filmes, e se tornou a primeira grande estrela Afro-Americana do rádio com sua série de comédia "Beulah". Ela se tornou ainda mais inovadora e pioneira novamente com uma versão de Beulah para a televisão em 1952, tomando o lugar de Ethel Waters depois da primeira temporada. Durante as gravações, Hattie foi diagnosticada com câncer de mama e saiu do programa, sendo substituída por Louise Beavers. 
McDaniel morreu aos 57 anos de idade, no hospital da Casa para os Artistas de Cinema e Televisão, em Woodland Hills; sua herança somava um pouco menos que dez mil dólares. O desejo de Hattie era ser enterrada no Cemitério de Hollywood, juntamente com alguns de seus parceiros do cinema, mas o dono, Jules 'Jack' Roth, se recusou a permitir que uma negra fosse enterrada em seu cemitério. Então, Hattie veio a ser enterrada no Cemitério Angelus Rosedale, em Los Angeles.Em 1999, Tyler Cassity, o novo dono do Cemitério de Hollywood, que mudou o nome deste para Hollywood Forever Cemetery, queria consertar os erros do passado e propôs à família de McDaniel que ela fosse enterrada no cemitério. Os parentes de McDaniel não quiseram perturbar os seus restos após tanto tempo, e acabaram recusando a oferta. Então, o Hollywood Forever decidiu construir um grande memorial no campo em frente ao lago, dedicando-o a McDaniel. É, hoje, um dos lugares mais populares para os visitantes do cemitério.

Memorial a Hattie McDaniel no Hollywood Forever Cemetery

Bom gente, peço desculpas por ser um post tão longo, mas acho super válido conhecer a história de uma pessoa tão guerreira que abriu os caminhos para que hoje possamos ver séries, filmes e tantas outras coisas protagonizadas por negros e que tais pessoas são valorizadas pelo seu talento, e não por sua cor! Lógico que tem coisa ainda por melhorar, mas a gente chega lá rsrs. Espero que tenham curtido e até a próxima!

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13 comentários

  1. Não fazia a minima ideia que foi ela que conseguiu "mudar" o que pensam sobre os negros. Amei a biografia dela!

    maduogeda.blogspot.com

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  2. Que legal! Bem interessante sua ideia de buscar pessoas não tão reconhecidas por todos e trazer para que possamos conhecer mais. Infelizmente, tem certos atores/atrizes que não tem sua vida contada de tal forma que outro por exemplo, mais famoso, o tem. Legal seu blog! Um beijo.

    www.gotadechampagne.blogspot.com.br

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  3. Que bacana!! Não conhecia ela, achei o máximo ela ter sido a primeira mulher a receber o oscar!!! Muito legal a história dela, é mesmo uma guerreira, amei!!
    Beijoos
    Yanna Karim

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  4. Sempre legal saber um pouco mais da biografia de pessoas importantes! Ainda não conhecia essa atriz, mas gostei de saber um pouco mais sobre a trajetória e história de vida dela. Já que vc gosta de biografias, uma muito boa que li é a da Rita Lee, quando tiver a oportunidade, leia! Vc vai adorar! Beijos e sucesso

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  5. Que triste história, né? A segregação nos EUA foi cruel e desumana, é até difícil comentar algo a respeito...
    Amo ...E O Vento Levou e não sabia que Clark Gable era amigo da Hattie, adorei saber que ele foi uma pessoa tão encantadora a ponto de querer boicotar a estreia para ajudar a amiga!

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  6. Oi Inajara!

    Eu não conhecia a história de vida por tras da mulher que fez a Mammy.
    E que discurso lindo ( e que história inspiradora ) Hattie fez no oscar, hein? Fiquei arrepiada! Adoro conhecer pessoas que marcaram a história mas que nem sempre temos o privilégio de alcançar, então, obrigada pelo post!


    Beijos! Nathy Bueno www.ocaosfeminino.com.br

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  7. AMEEEEEEEEI!
    Os racistas pira com o sucesso dessa mulher negra e maravilhosa! 😍
    Muito bom trazer histórias de luta e vitórias como essa, adoraria ver mais histórias assim!
    Parabéns!

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  8. Olá!
    Não peça desculpas, foi um post interessante de ler. Eu não conhecia a Hattie e, depois de ler tudo, estou totalmente admirada com a persistência e com a humildade dela. Adorei saber que ela mudou a forma de pensar da sociedade sendo ela mesma e cara... Fantástico. Está aí uma pessoa que todos deveriam conhecer. Quero ver mais biografias assim!

    http://www.loucurasaovento.com/

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  9. Oi Inajara! Adoro passar aqui no seu blog! Gosto muitos desse tipo de post contando um pouco mais sobre a história de pessoas que admiramos e que nos inspiram de alguma forma, foi muito legal ler um pouco mais sobre a vida da Hattie McDaniel, com certeza ela fez grandes mudanças marcantes no mundo.
    Beijos.

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  10. Ideia maravilhosa essa de exaltar pessoas admiráveis aqui no blog! Saber sobre a vida dessas pessoas com certeza é algo que todos devíamos. Mulher grandiosa, muito forte! Parabéns pela iniciativa e por favor, continue, o que você tá fazendo é essencial para a visibilidade de uma camada da sociedade que geralmente não é ouvida. Beijos!

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  11. Olá, como vai?
    Foi bom conhecer alguém tão inspiradora quando essa mulher.
    Mulheres assim devem ser melhor divulgadas, acabamos sempre falando das mesmas pessoas.
    Adorei esse seu post e fiquei com vergonha de até hoje não ter assiStido E O VENTO LEVOU.
    Beijo
    https://qadulta.blogspot.com.br/

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  12. Olá,parabéns por apresentar pessoas maravilhosas assim aqui no seu blog ..Pessoas assim todas nós deveríamos conhecer a historia e que de alguma forma vai inspirar outras .Ótima iniciativa !

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  13. Que lindo, Inajara! Adorei o post!!! Sou super fã de ...E o vento levou por causa do aspecto feminista do romance (apesar do contraponto racista...). Muito bom saber um pouco mais da história da Mammy! Achei que ela não tinha ido receber o Oscar por causa de ser negra!... Agora, um comentário válido é que eles já estavam criticando os papeis de serviçal negro nos anos de 1940 enquanto isso continua sendo quase regra nas novelas por aqui, né...
    Ah, vc trocou os números no ano do nascimento dela no seu texto, está 1985. ;)
    beijoo :)
    www.dosesdemim.com/

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