Desabafo: pseudocinéfilos

segunda-feira, março 10, 2014

Não sei se isso acontece somente em minhas redes sociais mas, nos últimos tempos, venho percebendo uma crescente onda de pessoas que se dizem simplesmente apaixonados por cinema. Até aí tudo bem, afinal, eu sou alegremente uma apaixonada pela sétima arte... Mas o que me irrita é que esse amor que todos proclamam aos quatro ventos no facebook é tão profundo quanto uma poça de lama (isso não é regra geral ainda bem).
O cinema é uma arte muito rica em sua forma e essência, isso desde suas origens lá nos remotos anos finais do século XIX. Entendo que dentro deste amplo espectro de curtas, longas, animações, dramas, romances, cults, mainstreams e afins haja no coração de cada cinéfilo uma preferência. Isto é totalmente compreensível.
Meu desabafo fica por conta daqueles que acham que podem se chamar "cinéfilos" se o máximo que

chamam de "clássico" é Taxi driver ou Clockwork orange... FALA SÉRIO NÉ!
Antes que venham me criticar também, quero deixar bem claro que não estão falando mal destes filmes, que são de verdade ótimos filmes que se imortalizaram na sétima arte, e que agora vem sido resgatados pelos cults de pantão. O que me dá nos nervos é que essas pessoas que se dizem tão entendidas e gritam para falar da originalidade de Scorcese, Kubrick e Tarantino... Não conseguem perceber um palmo à frente dos narizes delas! A genialidade destes grandes diretores está em saber usar de forma original as referências de grandes clássicos. Quero ver alguém chamar Tarantino de original depois de ver algum western do Sergio Leone ou o filme Battle Royale.
Como eu cheguei a esta conclusão de que o real interesse pelo cinema de ouro é pouco? Simples. Semanalmente eu posto em uma página de cinema sobre cinema clássico. Tentei levar pra lá todo o meu humilde conhecimento do verdadeiro cinema clássico para as pessoas conhecerem e saberem de onde as suas grandes estrelas se inspiraram. O resultado desse esforço? Uma decepção quase que semanal, não por conta da dona da página, que parece que era a única que curtia aprender mais sobre esta arte. Uma postagem até sobre filmes mainstream antigos só rendia um ou duas curtidas... Comparado a um dia dedicado a filmes estilo Sessão da tarde dos anos 80, que tinha uma bela quantia de likes por postagem. Mas essa lógica segue a de outras páginas: as pessoas só curtem fotos de filmes clichês e que de preferência não tenha texto junto. Afinal, quem entra em facebook pra ler né?!?
Mas sabe... Eu não culpo eles e nem vou parar de postar. Infelizmente a maioria não se interessa pela parte de arte do cinema, mesmo o que eles chamam por clássico é mainstream. Afinal, filmes como Encouraçado Potenkim não conseguiram fazer sucesso nem em sua época, porque agora viraria fenômeno das massas? As pessoas tem aversão a filmes de conteúdo "complicado", preto e branco... Se for mudo então... É o fim! Nem Buster Keaton salva.
Enfim, eu também estou em uma trilha muito recente nesse mundo do cinema além do mainstream, incentivado por um "sacode" de um professor de faculdade em uma fatídica aula de história da cultura. Como posso falar que amo algo se não passo da superfície? Temos que ir além, nos afundarmos rumo a obras de diretores que hoje nem escutamos falar como Fritz Lang, Vertov, Eisenstein, Gance, Pathé, Mizogushi, Christensen... Enfim, tenho certeza que será revelador essa viagem e tenho certeza que a sua próxima viagem ao cinema será bem diferente.


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4 comentários

  1. Adorei este post. Adoro o Giuseppe Tornatore e não sei porquê, a malta de hoje em dia não lhe dá o devido valor porque, enfim, não é considerado "cool". O que é certo é que chorei em todos os filmes dele. Não entendo como pessoas que pregam por aí que Pulp Fiction é o maior filme de todos os tempos quando nunca viram certas pérolas como o "Feios, Porcos e Maus", por exemplo, que é um grande exemplo do neo-realismo italiano, que não parece fazer parte da prateleira dos hipsters :p E tens razão, até chateia ver as pessoas no facebook a postar sempre as mesmas imagens sobre os mesmos cult movies, achando-se imensamente originais.

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  2. Falou tudo! Fico ainda mais revoltada com um caso aqui na cidade: um crítico de cinema, agora responsável pela programação do cine-clube, não sabe nada. Até comenta os filmes, para depois falar que ainda não os viu. Isso quando não solta alguma pérola (tipo: revelou o fim de Sabotador, de 1942). Essa besta tem muito cartaz e eu, que sei bem mais,sequer passei pela seleção para ser estagiária onde ele trabalha...
    Esse também é o problema do TCM: as pessoas amam os blockbusters da adolescência, dos anos 80, e assim o canal deixu de passar os clássicos de verdade.
    Ah, sabia que a famosa dancinha de Travolta e Uma Thurman em Pulp Fiction foi copiada de 8 1/2 ?
    Beijos! E apoio seu desabafo!

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  3. Fico feliz que vocês me entendam! Estou cansada dessa modinha de pseudocinéfilos que acham que clássicos se limitam a filmes dos pirralhos de Hollywood!

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  4. Adorei o post e concordo! Só uma dúvida: onde você posta semanalmente sobre Cinema? Vou adorar ler esses posts também. Abraço!

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